Miriam é uma migrante nordestina que veio tentar a sorte na cidade de São Paulo. Trabalha todos os dias como faxineira na região onde mora, Itapevi. A família mora em uma pequena casa, sem acabamento e com paredes cheias de marcas que denunciam novas e antigas infiltrações.
Nesse momento, estão com uma hóspede. Ellen Hortência, 22 anos, cabeleireira e manicure, veio passar 3 semanas com sua mãe, Miriam. Apesar de uma saber muito pouco ou quase nada sobre a outra, o esforço para se conhecerem melhor tem sido em vão. Mãe e filha não conseguem se comunicar, pois não falam a mesma língua. Miriam é uma mulher de pouco estudo que mostra em sua fala um básico conhecimento da língua portuguesa. Ellen só fala holandês e inglês.
Miriam deu a luz a Ellen em Pernambuco e, sem condições de criá-la e sem o apoio de seus pais e do pai da criança, que não quis assumi-la, deu sua filha para a adoção. Depois de uma semana, um casal de holandeses veio ao Brasil para adotar o bebê.
Ellen sempre soube que era adotada, até porque esse era um fato que não tinha como ser escondido. Seus pais adotivos são típicos europeus, têm a pele bem clara, cabelos loiros e olhos azuis. Ellen tem a pele, o cabelo e os olhos bem escuros.
Perto de alcançar a maioridade, Ellen enfrentava problemas psicológicos. “Estava muito deprimida, não queria mais viver”, conta ela. Ao completar 18 anos, seus pais contrataram uma agência para achar sua mãe biológica. “Eles achavam que, encontrando minha mãe, eu melhoraria, mas achar minha mãe não me fez sentir melhor”.
O primeiro encontro ocorreu em 2001 e, esse ano, tive o privilégio de presenciar o segundo reencontro de mãe e filha. Dessa vez, Ellen veio sozinha para o Brasil. Trouxe consigo 2 dicionários: um holandês-português e outro português-holandês. Para se comunicarem, procuram as palavras nos livros e mostram uma à outra.
Fui à casa de Miriam com o propósito de fazer uma entrevista, mas a sensação era que eu estava apresentando uma amiga à outra, que jamais tinham se visto antes. Abri mão das minhas perguntas e passei a mediar a conversa mais franca, sincera e completa que Miriam e Ellen jamais tiveram.
Eram dúvidas sobre abandono, adoção, religião e, principalmente, futuro. Ellen quer levar seus irmãos para fazerem faculdade na Holanda, pois diz não ver futuro para eles ali. Ellen e seus óculos Chanel não parecem pertencer a um mundo em que não há espaço para luxos. Sua bolsa Lacoste e seu Ipod destoam daquela casa onde falta dinheiro para quase tudo.
As horas passam e o tempo está acabando. Em breve Ellen voltará para seu país, deixando com Miriam muita saudade e a esperança de uma visita em dezembro. Ao final, seu padrasto brinca: “fale a ela para quando passar de avião aqui por cima, jogar uma mala de dinheiro”, mas logo depois se arrepende e me pede para não traduzir.