Sinais da Primavera

18/09/2009 por Paula Ricupero

Uma cena cômica e ao mesmo tempo tão graciosa. Três crianças, de mais ou 10 anos, maravilhadas com uma pequena árvore carregada de amoras. É finzinho de inverno e as plantas e arbustos na rua já dão sinais de que uma linda e florida primavera está por vir.

Voltando da escola, mais ou menos ao meio dia, de uniforme e mochila nas costas, os três não resistem à tentação de saborear uma sobremesa amoraantecipadamente. Enquanto dois escalam a árvore e vão arremessando as amoras para baixo, o terceiro equilibra uma folha sulfite sobre a cabeça, na tentativa de salvar alguns daqueles saborosos frutos roxinhos.

Bravos com o insucesso da rede improvisada, as crianças na árvore decidem comer diretamente dos galhos, enquanto que o do chão tenta, inutilmente, saltar em direção aos pontos mais altos, onde estão as mais docinhas e gostosas.

Incrível como a gente envelhece e nem percebe. Olhando aquela cena, a primeira coisa em que pensei, depois da comicidade da situação, foi nas pobres e coitadas mães que não sabem o que as esperam quando seus filhos chegarem em casa: camisetas branquinhas repletas de pequenas manchas…que nunca mais sairão!

Coleção de canetas

08/09/2009 por Paula Ricupero

Parece um discurso muito bonito essa história de sair pelas ruas conversando com todo mundo ao invés de me fechar em livros e Ipod’s. mas alguns fatos, ou melhor dizendo, um caso em específico, me mostrou que nem sempre isso termina bem.

Há uns três anos, minha rotina se limitava em acordar cedo, ir para a academia e seguir para a faculdade à tarde. Como meus horários de aula nunca mudavam, encontrava sempre as mesmas pobres almas que dependiam do lendário Praça Ramos – 7282. Nesse meu trajeto diário para o Mackenzie, fiz muitas amizades. Algumas que mantenho até hoje, outras que fujo atualmente.

Certo dia, entrei no ônibus e me sentei ao lado de um senhor – não me lembro o nome (sou péssima nisso!) – que devia estar lá pelas suas cinqüenta e poucas primaveras. Ele carregava uma inseparável maleta marrom já maltratada pelo tempo cheia de papéis, canetas e antigas fotos de sua filha. Seus cabelos crespos e desgrenhados eram de uma mistura de cinza com branco. Sua pele morena e maltratada pelo sol aparentava uma idade muito maior da que realmente tinha. Durante todo o caminho, fomos conversando sobre variados assuntos, seguindo numa conversa gostosa e tranquila.

Não sei se por coincidência ou não, passei a reencontrar esse mesmo senhor quase todos os dias que se seguiram enquanto continuei estudando à tarde – ou seja, por mais de um ano. A ideia de um forte laço de amizade e intimidade foi crescendo e ganhando espaço em sua imaginação. Eu mal entrava no ônibus e ele já gritava pelo meu nome lá do fundo. Era impossível negar um convite seu de se sentar ao seu lado. A insistência era tanta que uma aura forte de desconforto me obrigava a abaixar a cabeça e ceder ao seu pedido.

Até aqui tudo bem. Para mim não passava da necessidade de um solitário senhor em ter um pouco de companhia em seu solitário dia. Mas aí começaram os presentinhos. Quase que semanalmente, recebia canetas de todas as cores, tamanhos e modelos, o que só alimentava aquela constrangedora situação, e assim como era impossível negar seus pedidos, não conseguia me livrar das intermináveis canetas.

Meu horário na faculdade mudou, minhas viagens ao centro de São Paulo voltaram ao normal e minha mais nova coleção de canetas ficou, então, estagnada. Ou pelo menos era isso o que eu pensava e esperava. Mas o tal senhor não se conformou com a nova situação e passou a me esperar ansiosamente nos pontos de ônibus – não só o perto de casa, mas também o da faculdade. Algumas vezes, a espera foi bem sucedida – para ele -, muitas outras não, o que fez com que aquele carismático senhor – com a pobre desculpa de que procurava apartamento pra filha – tivesse a brilhante ideia de ir me caçar de prédio em prédio na tentativa de achar onde eu morava.

Como a jornada pelo meu bairro não rendeu nenhum resultado, ele resolveu – claro, como não tinha pensado nisso antes! – em me procurar na faculdade. Não sei quantas vezes ele zanzou pelo campus até me encontrar, só sei que cruzei com aquele senhor uma vez no ano passado, quando recebi novos modelos para minha coleção, e outra mais recentemente, no começo desse ano. Essa última, eu confesso, me fez sentir, pela primeira vez, um medo terrível. A cena foi patética! Eu fugindo dele, correndo pro diretório acadêmico mais perto, e ele atrás de mim gritando pelo meu nome.

Sinto-me péssima por isso, mas o limite ao qual chegou a situação, não me permitiu com que levasse tudo isso adiante. Creio que agora, depois dessa cruel fuga, as buscas e caçadas se encerraram, dando assim, um final triste para a história.

Alegria de viver

31/08/2009 por Paula Ricupero

“Olhem esse brigadeiro! Gordo não pode ver uma coisa dessas que é capaz de ficar louco!”, me pega de surpresa uma senhora na fila do restaurante. Era o maior brigadeiro que eu e minhas amigas já tínhamos visto na nossa vida, portanto, não tivemos como não concordar. Ela ainda me emenda: “ah, mas você é magrinha, pode comer um”. Juro, nem eu, que sou louca por chocolate, conseguiria comer uma coisa daquele tamanho.

A simpática senhora da fila é Jerusa, uma pernambucana que divide sua vida entre o Recife e São Paulo. Dória, sua amiga, pelo o que percebi de longas décadas, também veio à terra da garoa lhe fazer companhia. Elas têm filhos que moram aqui há muitos anos e aproveitam, sempre que podem, para visitá-los e, como elas mesmas dizem, para bater perna pela cidade.

As duas são de uma alegria contagiante. “Se pudesse, ficava até as oito horas sentada aqui conversando com vocês; contava minha vida toda”, nos consola Jerusa, que está de partida junto com a amiga no dia seguinte e por isso não querem perder seus últimos minutos em São Paulo.

Do curto caminho do restaurante até a rua Maria Antônia, conversamos sobre faculdade – “Minha neta faz direito na PUC”, fala Dória toda orgulhosa – , profissão – “Vocês fazem estágio?”, pergunta Jerusa, “É muito importante, tem que fazer” – e amores – “Ah, o que a gente não faz por amor!”, suspiram as duas. “Quanto coisa eu já não fiz pra aquele velho. Como eu me enfeitava, você lembra Dória?”.

Conversa vai, muita risada vem, mas as obrigações do dia nos fazem encerrar nossa deliciosa conversa. Na porta do prédio, mais uma prova da alegria de viver contagiante das duas. Uma garota para na entrada e as cumprimentam como se fossem velhas amigas. “Ela faz direito aqui no Mackenzie. Também vai se formar”, nos conta animada Jerusa.

O segundo reencontro

30/08/2009 por Paula Ricupero

Miriam é uma migrante nordestina que veio tentar a sorte na cidade de São Paulo. Trabalha todos os dias como faxineira na região onde mora, Itapevi. A família mora em uma pequena casa, sem acabamento e com paredes cheias de marcas que denunciam novas e antigas infiltrações.

Nesse momento, estão com uma hóspede. Ellen Hortência, 22 anos, cabeleireira e manicure, veio passar 3 semanas com sua mãe, Miriam. Apesar de uma saber muito pouco ou quase nada sobre a outra, o esforço para se conhecerem melhor tem sido em vão. Mãe e filha não conseguem se comunicar, pois não falam a mesma língua. Miriam é uma mulher de pouco estudo que mostra em sua fala um básico conhecimento da língua portuguesa. Ellen só fala holandês e inglês.

Miriam deu a luz a Ellen em Pernambuco e, sem condições de criá-la e sem o apoio de seus pais e do pai da criança, que não quis assumi-la, deu sua filha para a adoção. Depois de uma semana, um casal de holandeses veio ao Brasil para adotar o bebê. 

Ellen sempre soube que era adotada, até porque esse era um fato que não tinha como ser escondido. Seus pais adotivos são típicos europeus, têm a pele bem clara, cabelos loiros e olhos azuis. Ellen tem a pele, o cabelo e os olhos bem escuros.

Perto de alcançar a maioridade, Ellen enfrentava problemas psicológicos. “Estava muito deprimida, não queria mais viver”, conta ela. Ao completar 18 anos, seus pais contrataram uma agência para achar sua mãe biológica. “Eles achavam que, encontrando minha mãe, eu melhoraria, mas achar minha mãe não me fez sentir melhor”.

O primeiro encontro ocorreu em 2001 e, esse ano, tive o privilégio de presenciar o segundo reencontro de mãe e filha. Dessa vez, Ellen veio sozinha para o Brasil. Trouxe consigo 2 dicionários: um holandês-português e outro português-holandês. Para se comunicarem, procuram as palavras nos livros e mostram uma à outra.

Fui à casa de Miriam com o propósito de fazer uma entrevista, mas a sensação era que eu estava apresentando uma amiga à outra, que jamais tinham se visto antes. Abri mão das minhas perguntas e passei a mediar a conversa mais franca, sincera e completa que Miriam e Ellen jamais tiveram.

Eram dúvidas sobre abandono, adoção, religião e, principalmente, futuro. Ellen quer levar seus irmãos para fazerem faculdade na Holanda, pois diz não ver futuro para eles ali. Ellen e seus óculos Chanel não parecem pertencer a um mundo em que não há espaço para luxos. Sua bolsa Lacoste e seu Ipod destoam daquela casa onde falta dinheiro para quase tudo.

As horas passam e o tempo está acabando. Em breve Ellen voltará para seu país, deixando com Miriam muita saudade e a esperança de uma visita em dezembro. Ao final, seu padrasto brinca: “fale a ela para quando passar de avião aqui por cima, jogar uma mala de dinheiro”, mas logo depois se arrepende e me pede para não traduzir.

Uma breve explicação

27/08/2009 por Paula Ricupero

Em minhas andanças pela cidade de São Paulo, pelo Brasil e, em raras ocasiões, pelos países vizinhos, presenciei, ouvi ou li diversas histórias que me intrigaram, me instigaram e até mesmo me assutaram.

Vivencio hoje o aterrorizante período de produção do TGI ou, como é mais conhecido, do TCC. Estou fazendo, ou pelo menos tentando, um livro-reportagem de perfis – isso mesmo, nenhuma alma bondosa fez o favor de me convencer a desistir dessa ideia – de migrantes nordestinos que residem em São Paulo.

Na saga pela busca de personagens para meu trabalho, tenho me deparado com figuras interessantíssimas, o que fez surgir em mim a vontade de compartilhá-las. Não pretendo escrever aqui apenas histórias desses sampauleiros – termo pelo qual são conhecidos em algumas regiões do país – e, para isso, conto com a ajuda dos meus futuros leitores – espero que eu conquiste alguns – e suas colaborações. Sejam bem vindos!